quinta-feira, 27 de agosto de 2026

                                                 Reunião de Condomínio


Teresa não participa de reuniões de Condomínio. As poucas vezes que participou no passado ficou tão exausta com as discussões entre condôminos - por assuntos tão banais - que decidiu pela paz. Claro que arcou com ônus... sempre há uma medida... um rateio que, talvez, pudesse ter sido diferente se ela tivesse participado... enfim... bônus e ônus fazem parte da vida, e às vezes, só a paz de não fazer parte de uma sobrecarga emocional é o melhor... e continuar arriscando - não participando de reuniões de condomínio.


A ata da reunião anterior a que Teresa participou trouxe como um dos itens a possibilidade de venda do terreno e prédio onde ela mora. Possibilidade de permuta - por apartamento 15% maior, do seu atual, piscina, área de lazer, salão de festas (que no atual não tem). Teresa não quer se desfazer do seu apartamento, não tem interesse em nada das 'melhorias'... nem quer um apartamento maior. O que o prédio lhe oferece é suficiente... e ela é feliz onde mora.


O prédio é na praia, a maioria dos proprietários só vem no verão, alguns alugam anual ou por temporada. Piscina - exigiria manutenção constante - 9 meses praticamente ninguém usaria... ou 1  ou 2 pessoas, eventualmente. Salão de festas - talvez fosse utilizado pelos inquilinos de temporada... ou os moradores... área de lazer - nos quase 20 anos que Teresa mora no prédio, raríssimas vezes havia crianças por lá...  soma-se, então, manutenção de balanços muito pouco utilizados - os moradores regulares não tem crianças... e os inquilinos - geralmente são estudantes, ou pessoas que vêm para aproveitar a praia e não ficar dentro do condomínio... enfim... Teresa imagina seu pagamento de condomínio praticamente dobrar de valor  inutilmente...


E Teresa ama o seu ninho... aconchegante, com móveis de excelente qualidade, planejados... lindos.


Então, decidiu participar da reunião para dizer que é terminantemente contra à venda do terreno e, consequentemente, do sue apartamento. Para esse tipo de negociação é necessário que 100% dos proprietários aceitem... se não, não há venda.


Foi uma reunião tensa. Acabou com apenas a própria pessoa que havia trazido aos condôminos com concordando com a venda... outros decidiram posterga, outros não aceitaram.


O constrangimento;


Teresa era a mais enfática em dizer: 'não, nao quero vender e não irei vender'.


Marisa (nome fictício para a responsável por trazer o projeto da construtora que quer comprar o terreno)... desfilou um rosário de benefícios da venda. Teresa não é analfabeta e, claro, conseguiu ver, alguns desses benefícios... mas que não lhe interessam... punto e basta.


Marisa - Quantos anos a senhora tem?


Teresa meio desconcertada ficou tentando entender a lógica dessa pergunta no contexto em que estavam...


Teresa - Tenho 68 anos.


Silêncio... silêncio...


Teresa - Bom, como você pode ver não terei mais tantoooo tempo por aqui... então, daqui a pouco vocês podem vender o prédio.


Teresa só imaginou que Marisa queria Teresa fora do grupo de proprietários... não pensou, como depois alguém lhe disse 'talvez ela estava pensando que tivesse em ti algum traço de senilidade'... ou como sua neta pensou: 'vovó talvez ela tenha pensado que, como você já é idosa, é coisa de velho ser cabeça dura'...


Sei lá... Teresa não é cabeça dura... tem uma certa rigidez mental, sim... mas sabe bem o que quer e é capaz de mudar o seu querer quando vê benefícios nessa mudança...


Hoje Teresa acordou atordoada... não gostou do que passou durante a reunião... e se pergunta: 'que mundo é esse que uma pessoa faz um julgamento em público tão tacanho, triste, constrangedor a uma idosa... e está tudo bem?'

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