sábado, 18 de outubro de 2025

 

Amanhecer

 

Quando amanheceu já sorriam as cores...

A brisa matutina exalava um olor de rosas...

O mundo todo tinha um perfume casto.

 

As gotas de orvalho cintilavam à luz dos primeiros murmúrios do sol...

Luz nascente.

Fortemente oblíqua.

Indícios claros

De um dia claro e aberto.

Alegrias por perto.

 

De uma vida inteira

 

Uma vida inteira sem nada sentir,
pra que mentir, pra que disfarçar?
Ninguém passa pela vida,
sem amar, odiar, sorrir, chorar...
cair, levantar.

Sentimentos são assim como a brisa
da manhã leve suave
que refresca o dia,
torna o peso do caminho mais leve.
À noite se vai, se esvai,
como o sol, se esconde...
Vai pra onde?

Sentimentos são bruma, espuma,
são constantes, são passageiros,
são liberdade, são escravidão...
uma pontada de felicidade, de alegria,
de dor,  de agonia...
num cantinho qualquer de um coração qualquer.

 

Dias sem sinfonia

 

Tarde densa.

Tensa.

 

Sibilam os ares.

 

Vagueiam as ondas...

Num pra lá... pra cá.

 

As nuvens vagueiam.

 

Tímidos raios de sol pintam o céu aqui e acolá.

Um nevoeiro esconde o barco e seu barqueiro.

 

De maresia o mundo enche-se de cheiro.

Aroma de luz sem fé.

Hoje assim que o dia é.

 

Num descanso eterno

 

Descansa.

Refugia se entre os lençóis alvos e perfumados.

Cama macia.

Assim passa o dia.

 

O sol brilha lá fora.

Aqui dentro penumbra.

Mas se veem os contornos dos objetos.

Vida abjeta.

 

Não tem mais cores orgulhosas.

Não aprecia mais o perfume das rosas.

Não sorri. Nem chora.

 

Passa o dia assim: num descanso eterno...

Mantém-se inânime ao porvir.

Não se importa com o que há de vir.

E, se nada vier, também está tudo bem.

Fechou o coração pra vida.

Submissa espera o relógio tiquetaquetear o tempo.

 

Espera.

Espera uma longa espera...

O derradeiro momento.

 

 

Por quê?

 

Ah! Que mundo hostil este.

Amanhece mais um dia na cidade desumana.

Mendigos na sarjeta.

Um cão lhe faz companhia.

Espera pacientemente seu dono acordar da embriaguez...

 

Trapos sujos.

Jogados nas calçadas.

Homens desabrigados.

Homens desamparados.

Homens desesperançados.

 

O mundo é grande o suficiente pra toda essa gente que não tem lugar onde ficar.

Lugar digno.

Lençóis lavados e cheirosos.

Comida quentinha e saborosa.

Coração batendo em paz.

Alma agradecida.

 

Acordar assim pra vida.

 

Por que de muitos tiraram esse direito?

 

Ou o perderam num momento de confusão interna?

 

Ou... simplesmente desistiram...

Caíram e decidiram aí ficar.

 

No canto mais sujo...

Sem nenhuma intenção de tudo no lugar colocar?

 

 

Do amor vivido

 

Um único sentido,
um grande amor vivido,
a vida não tem sentido
quando o amor segue apenas um sentido.

Todo amor vivido
deveria ser compartido,
compartilhado,
ser lado a lado…

O amor quer ser dado
mas também ama ser recebido...
e sempre quer ser regado.


Quem ama não quer nada em troca?

Não, não acredito nisso não...
amor, pra mim, é um caminho de duas mãos.

 

 

Nova vida

 

Um dia ele vai conseguir.

Estou certa disso.

A posição em que se encontra endureceu-lhe os ossos, endureceu-lhe a mente.

 

Mas... o ser humano é maleável.

Um dia ele vai conseguir.

Vai se levantar do chão.

Erguer a cabeça.

Voltar seu olhar para o céu azul.

Encontrar a esperança perdida.

Dirigir-se na direção da saída.

E vai recomeçar.

Espera-lhe bem aí na frente sua nova vida.

 

Sons da vida

 

Sons da vida
melodias perdidas,
palavras esquecidas,
tentativas frustradas,
não acreditar mais em nada.

Sentimento não compartilhado,
no peito um silêncio cravado,
o amor completamente distante,
por aqui passou por um mero instante.


Num espaço de tempo brevíssimo,
um prazer imensurável...
um átimo...
e tudo é mutável,
mutante,
mutilável,
silenciável,
acabável.

 Natureza

 

Tarde densa e parada.

Ventos alados ventando bem longe daqui...

Há luz por detrás das neblinas.

Abrem-se as cortinas.

 

Nenhuma réstia de sol rompe a frágil barreira...

Nenhuma luz nascente

Brilhará no poente.

 

Tarde densa e parada.

Prenúncio de chuvarada.

 

Amanhecia o dia preguiçosamente.

Uma suave brisa respirava...

Nos verdes montes as folhas das árvores se agitavam mansamente.

 

Mais um dia acontecia.

 

Raios de sol timidamente espiavam o mundo lá fora, por entre nuvens que passeavam garbosas e orgulhosas de seu ondular sereno.

“Como o mundo é pequeno”, pensavam elas...

 

A frescura do dia pouco durou.

As nuvens se dissiparam.

Os raios de sol, agora, todo o lugar ocuparam.

 

Cheios de si.

Cheios de luz.

Cheios de calor.

 

Embevecidos contemplavam as sombras que sua luminosa alegria faziam ao passar por entre os ramos das frondosas árvores.

 

A obra.

 

A obra de arte materializada.

Obra que nenhuma mão humana jamais fará.

 

É a natureza... ou nada

 

Um ponto de luz

 

 Sombras se entrelaçam na escuridão profunda...
Um ponto de luz brilha, distante como um sonho.
Lá no alto, a lua, desgastada pelo tempo,
reflete esperanças vãs em sua face de pranto.


O cansaço dos pobres mortais ecoa na brisa,
enquanto a noite abraça os corações aflitos.
Cada estrela é um sussurro, um desejo navegante,
na vastidão do céu, um farol relutante.


A luz da lua, em sua palidez serena,
ilumina o caminho de almas tão pequenas.
E mesmo quando o mundo parece desvanecer,
esse brilho longínquo nos ensina a viver.

Na dança das sombras, pois, um raio persiste,
Um lembrete sutil de que a esperança resiste.
Assim, na escuridão, encontramos o que nos abriga:
um ponto de luz que eternamente a seguir em frente nos instiga.

 

 

Porta-retratos

 

Uma casa minimalista.

Um quarto minimalista.

Cama.

Roupeiro.

Criado-mudo.

De mudo não tem nada.

O porta-retratos sobre ele grita um amor que era pra ser eterno.

Eternizado o momento.

Captado todo o sentimento.

Expressão momentânea...

que se repete cada vez que meus olhos – disfarçadamente – olham pra fotografia do que fomos nós um dia.

 

Nos abismos do ser, anseios sufocam,
Soluços dançam nas sombras, ecoando as dores,
Errôneo é o caminho trilhado, errante,
A mente insana busca paz entre os temores.
Olhos cansados de chorar, pesares guardados,
Insones vigílias na noite conflitante,
O sôfrego coração, pulsando apressado,
Carrega o peso da alma, um fardo incessante.
Mas há uma chama, mesmo em meio à dor,
Que brilha suavemente, promessa de alívio,
Nos silêncios profundos, a esperança resplandece,
E transforma esses males em um novo motivo.

Assim, entre soluços e lágrimas perdidas,
Ergam-se sonhos, trazendo vida às partidas.

 

Tua voz

 

Lábios trêmulos

na nudez da tua voz...

troco beijos por sina

vilã do destino

pontuando suavidade de brisa.

 

Umedece meus lábios a lágrima que deslizou pelo rosto.

Do sal agora sinto o gosto.

É escolta que pernoita em mim.

 

Onde estás?

 

Vagueio na penumbra...

Doce a praguejar teu nome.

 

Estás tu no mundo perdido de mim?

 

 

 

 

 

Ruas de concreto

 

Nas ruas de concreto onde o caos se alastra
medos se entrelaçam em sombras, e a se vida desgasta.
Entre ladrilhos frios, sementes escondidas,
esperanças florindo, mesmo em almas feridas.

O perfume das flores é um grito silente,
no coração da cidade, um amor latente...
Mas a decadência dança na luz do luar,
enquanto a inocente inocência se deixa levar.

Roubo de sonhos, solidão que a cada um abraça...
cárcere privado, por onde a luz nenhuma passa.
Desestímulo a crescer como erva daninha...
Nem um fio de vida pelas fétidas ruas caminha.

Em cada esquina, uma história esquecida,
sussurros de risos, lembranças perdidas.
E, ao olhar mais atento sob o céu cinzento,
esvai-se toda a esperança, como flores no vento.

 

 

Do amor

 

De passos falsos.

De sonhos desfeitos.

De dias imperfeitos.

De pés descalços.

Cadafalso!

 

De solidão.

De dor.

De falta de paz.

De ser tão incapaz.

Desconexão.

Segredo: aqui jaz!

Vida desajeitada.

Estrada atrapalhada.

Na areia da memória pensamentos enterrados.

Encruzilhada.

Encruzada.

Cruzamento (des)cruzado.

Pontos de interrogação.

Confusão.

Ausência de solução!

 

Do amor...

Quando você chegou

e tudo dentro de mim ajeitou.

 

Do amor que só me amou!

 

Desconexo

 

Canto

deixo

palavras

desconexas...

 

Nesse vaguear pela penumbra

sussurro teu nome.

 

Vejo-te de mãos abertas e olhos fechados.

 

Abraço-te.

Mas só há um vazio.

 

Adormeço neste nevoeiro desconexo que sou.

 

Morrendo de saudades

 

 

Ainda brotam botões de rosas no canteiro que fizeste.

Pegaste tua bagagem e te foste.

Ainda zunem as abelhas recolhendo seu alimento nas tardes ensolaradas.

Bateste a porta… sem dizer adeus.

 

Ainda passa o pipoqueiro vendendo pipocas e algodão-doce colorido na nossa rua (‘nossa rua’… estranho escrever isso… porque agora ela já não é mais tua… é só minha).

 

Fiquei na janela até ver sumir lá longe o nosso carro e você nele (‘nosso carro’… estranho dizer isso… ele já não é mais meu… é só teu).

 

Encontraste serenidade?

Encontraste a paz que tanto procuravas?

Dizias que calma, serenidade e paz só longe de mim tinhas certeza de que estavam.

 

Se sim... aproveita tudo que já viveu, conhece e sabe... e aplica...

 

Eu?

 

Ah... eu aqui continuo a mesma – te amando – e morrendo cada dia um pouquinho mais de saudades.

 

 

 

Doce aroma

 

Sinto no ar um aroma suave...

É a brisa leve que chega espalhando perfume

de flores

 

liberta-me das amarras... liberta-me dos grilhões...

faça-me ouvir apenas suaves canções.

 

Leveza de espuma

Afastando docemente o insistente

rumor da bruma fria, vilã do meu destino...

a rondar meus dias

quando estou

longe do teu amor.

 

Entrelinhas de alento

 

No silêncio suave de um passo lento,
entre palavras sussurradas,
encontro o alento que acalma esse grande tormento,
escrevo a paz em linhas entrelaçadas.

O amor se veste de sutis nuances,
em cada gesto, um mundo a despertar,
a esperança brota como flores dançantes,
no compasso sereno de um olhar.

Suporte nos braços da vida,
como um abrigo em tempos incertos,
faz da fragilidade sua medida,
revelando segredos trincados em versos.

Deixe as inquietações ao vento,
pois a alma anseia por leveza e tempo que brilha;
caminhar é encontrar no momento,
a beleza escondida em cada trilha.