terça-feira, 15 de setembro de 2026

 Estou de partida,

cansei desta vida,

procuro, em silêncio,

na penumbra dos dias a porta escondida.


Levo nos olhos

o sal das marés,

um céu despedaçado

e muitos antigos porquês.


Fui ave ferida,

sem ninho, sem canto,

voando entre abismos,

bebendo o fel do pranto.


Mas há, sob as cinzas,

uma brasa acesa;

um sopro pequeno

de pura e doce surpresa.


Talvez a saída

não seja partir,

mas abrir as asas

e aprender a voar por caminhos opacos

me equilibrar entre os que realmente estão a existir.


Talvez o caminho a se fazer... se refazer...

comece no chão,

quando a própria queda

se torna impulso e mão.


Se a noite me cerca com seu véu profundo,

ainda há estrelas espiando o mundo.


E, mesmo cansada,

minha alma se atreve:

há vida escondida neste instante tão breve.


Não parto do mundo,

parto do que me dói;

deixo para trás um medo que me estrangula e me corrói.


Recolho meus cacos,

reaprendo a voar:

sou ave ferida,

mas posso pousar...

e, assim que curada, recomeçar.


Amanhã, talvez,

com o peito aberto,

descubra na estrada

um recomeço perto...

faça eu um voo certo.

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