Mais um dia...
O ônibus da linha que me leva ao centro segue trôpego, aos solavancos... para no meu ponto. Subo. Tímida, sempre. Preciso enfrentar o olhar de passageiros sentados... o meu olhar só busca um lugar desocupado. O ônibus arranca num solavanco seco. Consigo me equilibrar... sempre consigo... estou treinada. Desfilo na passarela do ônibus e me sento... momento em que começo a fazer parte dos anônimos... torno-me parte dos anônimos.
Acompanho o deslizar da paisagem. Desolada. Ela e eu. Revezam-se coloridos e descoloridos... casas feias e bonitas... árvores frondosas que resistiram ao granizo da noite anterior e árvores mortas, já.
Depois de parar e seguir em frente algumas dezenas de vezes, a paisagem muda. É a beira-mar. Só mar e mar a deslizar suavemente diante de meus olhos... Estou serena e triste... não queria chegar a lugar nenhum... só seguir sempre em frente num total esquecimento de tudo... numa total lembrança de nada. Queria ir até onde o fim do tempo mora. Construir uma casinha com folhas que não resistiram à irremediável queda imposta por uma chuva de granizo... Me recolher e descansar na rede do pescador que acabou de jogar a rede ao mar...
Ponto final! Estou no meio de uma coisa e outra coisa. Um pouco mais serena agora. o balanço do ônibus colocou algumas peças no lugar dentro de mim... tirou outras... neurônios confusos...
Quando chegar o amanhã meu corpo já se terá recuperado... os neurônios já terão recuperado seu equilíbrio.
Sim... porque sempre volto pra casa em minhas próprias pernas. Caminho e caminho... já aprendi que cada dia tem seu matizes e que eu posso escolher o caminho e o modo como passar por ele.
Rosangela Calza
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