O tempo que importa
Há um tempo que não se mede
pelos relógios cansados
nem pelo sol descendo atrás das casas.
É o tempo guardado no silêncio,
onde a memória respira
como brasa sob a cinza.
Ali, cada pedra conhece um nome,
cada caminho conserva passos,
cada árvore permanece de pé
mesmo quando a tempestade
lhe arranca metade dos braços.
O território não é somente chão:
é a voz dos antepassados
molhada pela chuva,
é o pão repartido,
a infância escondida no quintal,
a cicatriz que aprende a florescer.
Permanecer não é ficar imóvel.
É fincar raízes
sem esquecer o movimento da água;
é levantar-se tantas vezes
quanto o medo ordenar a queda.
No silêncio, ouvimos os que partiram.
Suas palavras atravessam a noite
e chegam ao peito
como pássaros procurando abrigo.
Então resistimos —
não por heroísmo,
mas porque a terra nos chama
pelo nome antigo
que ninguém conseguiu apagar.
E quando o mundo disser
que tudo passa,
responderemos com a memória:
há presenças que não terminam,
há casas dentro do corpo,
há rios que continuam correndo
mesmo sob a pedra.
O tempo que importa
é aquele que permanece em nós
e, pela nossa voz,
aprende novamente a nascer.
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